Entrevista

"Antes de mais, o facto de estar viva, e de estarmos vivas já é, por si só, um lugar de resistência." Entrevista a Sara Montalvão

por Ana Tomás Lopes
Sala em Branco - 1ª Edição

O projeto Agostina abre espaço para refletir sobre as violências que atravessam os corpos femininos e sobre a forma como estas se inscrevem na memória individual e coletiva. A partir do feminicídio de uma adolescente na Argentina, a criadora Sara Montalvão explora a relação entre corpo, som e memória, procurando transformar uma dor coletiva numa experiência partilhada, onde o íntimo e o político se encontram.

No momento desta entrevista, está em residência artística n’A Turma, no âmbito do programa Sala em Branco, e o projeto terá uma pequena partilha do processo no dia 24 de setembro, às 19h.


Ana Tomás Lopes (ATL) - Agostina nasce do eco de uma ausência e parte de um caso real de feminicídio. O que te levou até à história de Agostina Vega e o que encontraste nesta história que te fez querer transformá-la numa criação?

Sara Montalvão (SM) - Quando soube do caso da Agostina, tocou-me bastante e deu-me o impulso de querer fazer algo com isto. Mas não é uma coisa que tenha surgido com Agostina. É quase como se tivesse sido uma espécie de… não diria «gota de água», porque são coisas que estão sempre a acontecer... - mas o caso dela, tendo em conta que era uma adolescente de 14 anos e que envolve questões de redes de tráfico sexual - é uma questão que me toca enquanto mulher e enquanto ser humano, porque é uma dor coletiva. É assim que a sinto.
O facto de ser uma dor coletiva e de ser algo que também me atravessa… O que lhe aconteceu é algo que pode acontecer a jovens ou mulheres adultas. E acontece. Muito.
Eu já tinha imagens, inquietações e coisas que queria transformar, que também estavam mais ligadas à violência sobre a mulher. Mas o caso dela surgiu numa sequência de eventos e acontecimentos que me deu esse impulso para querer transformar tudo isto em alguma coisa que pudesse ser partilhada: uma dor coletiva para ser atravessada de outra forma.


ATL - No projeto, o corpo surge como “arquivo sensível”, onde se cruzam memória, violência, intimidade e dimensão política. De que forma estás a trabalhar o corpo enquanto lugar de memória e de resistência durante o processo de criação?

SM - Antes de mais, o facto de estar viva, e de estarmos vivas já é, por si só, um lugar de resistência.
Há muitas mulheres que passam por situações de violência sexual, de violência de género, de tentativas de manipulação para redes de tráfico… enfim. Claro que esta é uma realidade que na América Latina está muito mais presente ou, pelo menos, é muito mais falada e visível.
Vivi na Argentina durante quatro anos, por isso tenho uma relação próxima com este território e também com o Brasil, porque passei lá bastante tempo e criei muitas relações. Há sempre uma certa triangulação, para mim, entre Argentina, Brasil e Portugal. Sei que estas questões são muito mais faladas e discutidas lá, também porque estão muito mais visíveis ou presentes, mas isso não quer dizer que não existam cá.
Este é também um debate muito amplo e global. Tem a ver com a violência de género, mas também com a masculinidade tóxica e com uma série de outras questões que, atualmente, se debatem e sobre as quais se fala muito mais.
O meu corpo, enquanto corpo de mulher, já é atravessado por uma série de experiências partilhadas com outras mulheres. E por uma série de leituras sociais que, dependendo do contexto social e geográfico onde me encontro, serão sempre diferentes. E, a partir dessas leituras, podem surgir tanto privilégios como violências. Há sempre diferentes cargas sobre um corpo.
Nesta criação, o lugar do meu corpo é este: estou viva, tenho essa possibilidade de estar viva. E o facto de estar viva é, por si só, uma bênção. Então, acho que isso é um lugar de resistência: existir, estar viva e poder expressar-me, empatizar com esta situação, senti-la, partilhá-la e transformá-la, de alguma forma.


ATL - Referes que esta criação articula movimento, batidas, arquivos sonoros, vozes, textos e outros materiais documentais. Como é que estes diferentes elementos se relacionam e se transformam entre si no processo de investigação?

SM - Então, eu ainda estou a investigar. Estou no início, porque isto surgiu de um impulso provocado por este caso, que mexeu comigo e me emocionou particularmente. A partir daí, também comecei a compilar outros casos, assim como diferentes registos e perspetivas, e coisas que iam aparecendo nas redes: vídeos de homens a comentar sobre o assunto, sobre o caso da Agostina, mas também sobre outros casos.
Inclusive com as novas tecnologias há toda uma rede alargada também de possibilidades de violência sobre a mulher. Tudo isto também me coloca num lugar de revolta.
Olho para o estado atual do mundo, com a extrema-direita a ascender, com estas mulheres conservadoras que agora aparecem a questionar o voto feminino e estas coisas completamente absurdas, sendo que também fazem parte de uma estratégia muito maior, relacionada com questões económicas, entre outras. Ou seja, há aqui muitas questões. Não é só uma questão. A questão social e a violência de género também têm a ver com questões económicas e políticas. Isto afeta, obviamente, o campo íntimo. Afeta muito o campo íntimo e a forma como uma mulher vai atravessando todas essas questões ao longo da vida. E também a forma como um homem as vai atravessando, algo que acho importante incluir, porque há muitos homens que nem sequer têm consciência de tudo isto, da manosfera. Há muitos homens que nem sequer sabem que isto existe. Há muitos homens que nem sequer têm consciência do assédio que existe. E isso também é importante: muitas vezes, são homens supostamente desconstruídos, etc., mas que não sabem que estas coisas acontecem.
Acho que é importante saber que isso existe para se poder discutir e debater, porque depois há também as microviolências, que levam a violências maiores. Há coisas que, às vezes, uma pessoa acha que estão muito longe, mas não estão assim tão longe.
Falar disto, às vezes, é difícil. Por isso é que prefiro levar estas questões para o corpo. A vantagem da dança, de trabalhar com o corpo, é que permite um vocabulário abstrato que, às vezes, acho que chega um pouco mais longe do que as palavras, porque as palavras parecem cansar.
A pesquisa também é cansativa, porque fui investigando muita coisa: materiais documentais, registos de áudio, pessoas a falar, os media, muita coisa nas redes, no Instagram, vídeos de homens a falar sobre o assunto, mulheres a falar sobre o assunto, várias coisas. Tenho muitos vídeos e estou a baixar o som desses vídeos. Estou a tentar trabalhar com o som, com esse arquivo documental, aquilo que se ouve, aquilo que se pode entender, mas também há diferentes línguas presentes, portanto, isso também é algo com o qual quero trabalhar a nível de composição. Não sei exatamente como é que vou trabalhar tudo isso no futuro. Estou apenas a experimentar e a perceber como é que consigo fazer essa montagem e também propor a escuta, o estar realmente a ouvir.
Existe uma curadoria sonora: o que eu escolho que se ouça, o que quero que se ouça. Às vezes, não se vai poder entender o que está a ser dito, mas entende-se o tom e a entoação. Isso também é uma forma de fazer chegar.
Estou também a perceber como é que entra o corpo, em que momentos entra, como é que não entra, quando é que se liga, quando é que se desliga da situação e se transforma noutra coisa… Isto é uma questão de composição que ainda estou a experimentar. E o dia 24 será, de certa forma, uma mostra. Poder confrontar-me também com isso é bom, porque, para já, tenho uma estrutura desenhada.


ATL - Com este projetos, referes que procuras “retirar a violência do campo do espetáculo para a devolver à experiência humana que a atravessa”. Como é que tens pensado nessa relação entre representação, violência e responsabilidade na construção da peça?

SM - O devolver à experiência humana que nos atravessa passa por fazer com que as pessoas também… como dizer... porque, quando ouvimos uma notícia dessas, automaticamente empatizamos, e isso já é uma experiência humana que nos atravessa, de alguma forma, perante este tipo de violência. Somos seres empáticos naturalmente, certo? Somos seres sociais, então a empatia está lá.
Para além disso, esta é uma questão em que há muito debate e muita informação. Nem sempre essa informação chega a toda a gente, mas, ao mesmo tempo, também existe uma sobrecarga de informação.
Há também outra questão: como é que vivemos isto no dia a dia, sendo mulheres ou sendo corpos que se assumem como mulheres? Enfim, também sendo pessoas que não são lidas como mulheres, como é que sentem isso, como é que vivem isso?
Então, é tentar, de alguma forma, fazer com que seja uma experiência partilhada, mais do que uma coisa de «ai, que horror, isto aconteceu», «ai, que horror, isto aconteceu». É procurar que seja mais uma experiência partilhada no sentido de perceber como é que estas violências realmente nos afetam a nível mais íntimo do que político.
Mas o político e o íntimo estão sempre relacionados, porque tudo o que é político também nos afeta a nível pessoal e, portanto, vai sempre afetar o campo íntimo. E aquilo que também nos afeta a nível íntimo vai refletir-se a nível coletivo e social. Então, no fundo, é tentar fazer com que, através desta composição - de trazer áudios, documentos sonoros e o corpo em movimento, o que é que ele faz, o que é que não faz, como é que é visto, como é que é lido - as pessoas possam partilhar essa experiência da violência, senti-la e questionarem-se também como é que isso se reflete no campo íntimo delas, o que é que lhes provoca.


ATL - Agostina foi um dos projetos selecionados para esta primeira edição do programa de residência de curta duração Sala em Branco. De que forma esta residência está a contribuir para o desenvolvimento do projeto e para aquilo que estás agora a descobrir sobre a criação?

SM - Então, isto ajuda sempre, porque o facto de poder ter um espaço, mentalmente, já me coloca naquele lugar de «Ok. Agora vou ter aqui duas semanas em que posso dedicar-me a isto». Porque era uma coisa que estava só na minha cabeça: andava a pesquisar, a compilar áudios e documentos, a ler coisas, a imaginar, a ter visões e a anotar coisas, mas ainda não tinha ido para o estúdio praticar e experimentar concretamente.
Uma coisa é aquilo que temos na cabeça e outra é aquilo que estamos a fazer no estúdio. Depois, a coisa começa a ganhar outra forma. Começo a ver e a pensar: «Afinal, não é sobre isto, mas o que é que estou aqui a fazer?» E essas dúvidas todas são importantes. É importante estar este tempo a experimentar, a perceber e a colocar em prática as coisas que estão, de certa forma, na cabeça, porque, quando estás a criar uma coisa de raiz, é preciso experimentar.
E eu, para além do corpo, também estou a trabalhar sozinha a nível de sonoplastia, para já. Gostaria de poder alargar a equipa, mas isso é algo que depende de fundos e financiamentos que possam chegar. Para já, estou a trabalhar o som, porque já no meu último solo trabalhei um bocado na sonoplastia e é uma coisa que me interessa. Gosto muito de trabalhar documentos sonoros, então isso dá-me outra camada de trabalho de composição junto com o corpo.
Tenho amigxs meus que me vão dando dicas do que fazer e como fazer a nível do som mas, neste momento, estou a focar-me nesta composição entre corpo e som, a tentar encontrar uma estrutura-base onde possa desenvolver mais a fundo, no futuro.

  • em residência n'A Turma no âmbito
  • Sala em Branco
  • residências curta duração 2026-2027
  • período de residência
  • I. 14 a 24 setembro 2026
  • apresentação final
  • 24 de setembro, 19h
  • local
  • A Turma
  • Rua Santa Catarina, nº 1277
  • 4000 – 477, Porto
  • entrada
  • entrada livre
  • reservas através do e-mail producaoexecutiva@aturma.pt