Terraplanistas , de Santiago Sanguinetti, é um musical político que cruza humor negro e imaginação crítica para explorar o universo das teorias da conspiração e dos movimentos anti-científicos. A partir da viagem absurda de um grupo de terraplanistas rumo à Antártida, a peça constrói uma narrativa onde o delírio coletivo, o desejo de pertença e a erosão da verdade se entrelaçam. Entre o riso e o desconforto, Sanguinetti questiona os mecanismos contemporâneos de desinformação e a sedução do irracional, propondo uma experiência teatral que convoca o público para um lugar ativo de escuta e reflexão. A obra nasceu no contexto do InResidence 2025, desenvolvido com A Turma, no Porto, evidenciando o compromisso da estrutura com a criação contemporânea e o diálogo internacional.
Em Manifesto Zombie, o autor revisita a memória histórica do Uruguai para construir uma farsa política onde o fantástico e o ideológico se encontram. A partir de uma premissa insólita - mortos que regressam à vida ao ouvir palavras do Manifesto Comunista -, a obra desenrola-se como uma sátira mordaz sobre poder, violência e herança histórica. Entre o grotesco e o cómico, Sanguinetti desmonta discursos estabelecidos e confronta o espectador com questões urgentes sobre justiça, consciência política e responsabilidade coletiva. O riso surge aqui como ferramenta crítica, capaz de expor as contradições de um sistema que transforma os vivos em figuras alienadas.
Reunidas neste quarto volume da Coleção de Teatro A Turma, estas duas obras revelam a singularidade de uma escrita que alia irreverência formal e densidade política, afirmando o teatro como espaço privilegiado de pensamento, confronto e imaginação crítica no presente.
© Francisco Lobo
© Francisco Lobo
© Francisco Lobo