Vivemos tempos em que a realidade parece ter perdido o chão: onde o absurdo se confunde com o quotidiano e as fronteiras entre a crença e o delírio se desfazem à velocidade de um scroll. É a partir desse território instável que nasce TERRAPLANISTAS, o novo projeto do dramaturgo e encenador uruguaio Santiago Sanguinetti, artista em residência n’A Turma, no âmbito do programa InResidence 2025.
Um grupo de terraplanistas parte da Cidade do Cabo rumo à Antártida com o propósito de demonstrar que a Terra é plana e está rodeada por uma muralha de gelo. Ao ritmo de canções e teorias delirantes, atacam uma base científica e fazem reféns os seus investigadores. Inspirado em factos reais, o projeto propõe um musical político que, através do humor negro, explora a fascinação contemporânea pela desinformação e o desejo de pertença em tempos de ruído digital. Neste cenário de incerteza, as teorias da conspiração surgem como uma corda à qual muitos se agarram: um ato de fé em pleno vazio, uma forma moderna de pensamento mágico que procura dar sentido à crise. Durante a residência, Sanguinetti escreverá a peça TERRAPLANISTAS, uma experiência que investiga as fronteiras entre política, ficção e humor. Conversámos com o autor sobre o seu percurso, o impulso que deu origem a este projeto e o papel da arte num tempo em que a ficção e o delírio parecem disputar o lugar da realidade.
Antes de falarmos de TERRAPLANISTAS, gostava que te apresentasses a quem ainda não te conhece. A tua escrita atravessa a política, a filosofia e o humor, mas também temas ligados à ideologia e à condição humana. O que te move como artista e o que procuras descobrir, ou provocar, através do teatro?
Essa pergunta está relacionada com a minha formação académica. Penso o teatro a partir da interpretação, porque sou ator. Licenciei-me na EMAD, a escola nacional de teatro do Uruguai, mas ao mesmo tempo sou professor de literatura e trabalho com adolescentes em liceus de Montevideu. Estudei também filosofia na Faculdade de Humanidades e sou diplomado em estudos internacionais pela Universidade do Chile. Todas estas formações convergem num tipo de teatro ideologicamente comprometido, politicamente consciente, mas que conserva uma dimensão lúdica própria do jogo teatral, entendendo o texto como uma possibilidade de explosão histriónica para os atores.
O texto está fechado, mas a cena continua a ser um território aberto para o ator. De que forma te interessa esse jogo entre a precisão da escrita e a liberdade interpretativa?
O que está aberto é o nível emocional a que as interpretações podem chegar através da escrita. Em geral, os meus textos estão terminados quando começo a trabalhá-los com os atores. Mas procuro que essa escrita seja uma possibilidade para o desenvolvimento das suas capacidades interpretativas, o que não implica necessariamente improvisar palavras, mas permitir a explosão emocional e lúdica de atores e atrizes imersos na situação dramática. No meu último texto, ZOMBI MANIFIESTO, por exemplo, escrevi duas personagens diametralmente opostas para serem interpretadas pela mesma atriz, Carla Moscatelli. Uma era uma mulher jovem, a outra um homem de 70 anos, hiperfascista. A Carla ganhou vários prémios em Montevideu por esse trabalho. A sua interpretação foi brilhante. O texto foi uma desculpa: as palavras procuravam o desdobramento das suas capacidades interpretativas. Esta forma de escrever tem, por sua vez, uma componente humorística, porque mistura elementos que, em princípio, não deveriam coexistir. E o humor, na realidade, é isso: juntar elementos que, à priori, parecem não combinar.
TERRAPLANISTAS parte de um tema que parece saído de um delírio coletivo, mas que tem raízes muito reais. O que te levou a abordar o terraplanismo através de um formato musical e o que te interessa nesse fenómeno, na sua dimensão social, simbólica e absurda?
Quando me confronto com a ideia de uma nova peça, costumo pensar no impacto sensível e estético que esse trabalho terá nos meus espectadores ideais, mentais. Imagino uma comoção específica entre forma e conteúdo. Por isso, costumo combinar elementos opostos: a conteúdos sérios, formas irreverentes. Neste caso, o tema é o terraplanismo, mas a forma é o musical, o que, por si só, é algo estranho e que me seduz. É nessa contradição que encontro movimento, pensamento e discussão política. Tomo o terraplanismo como um exemplo particular das teorias da conspiração, dessa espécie de pensamento mágico que tantas vezes acaba associado a extremismos, a fascismos, próprios de indivíduos alienados, mergulhados num neoliberalismo extremo que desumaniza, despersonaliza e isola. A minha intenção ao tratar este tema é criticá-lo, sim, ver o seu lado patético e perigoso, mas ao mesmo tempo compreender a sua tristeza, tentar entender quão isolado se deve sentir alguém para encontrar uma sensação de pertença num grupo tão absurdo. O meu propósito com esta obra é, portanto, expor o ridículo, mas também reconhecer que esse ridículo é resultado da ação despersonalizadora de uma economia globalizada que separa, compartimenta e lança as pessoas ao abismo.
O surgimento de crenças como o terraplanismo é, nesse sentido, consequência de uma atitude que também nos pertence. Até que ponto não somos nós responsáveis por aquilo que existe? O que fazemos para o evitar? Limitamo-nos a apontar e condenar, ou trabalhamos para integrar?
Estas perguntas fazem parte da história que estou a escrever, sem esquecer o humor desesperado e corrosivo próprio dos tempos extremos, as canções de glam rock compostas pelo músico com quem trabalho atualmente, Sebastián Codoni, e sem esquecer que estas personagens são patéticas, tristes e, ao mesmo tempo, comoventes. É assim que quero construí-las: comoventes, ainda que grotescas e violentas.
Vivemos rodeados de desinformação — fake news, redes sociais que alimentam bolhas e nos repetem o que queremos ouvir. Achas que essa lógica algorítmica tem um impacto direto na forma como hoje se constrói o pensamento político e o extremismo? Essa banalização da informação pode transformar-se num terreno fértil para extremismos e populismos?
As redes sociais oferecem um mercado hiper-livre de informação, não categorizado de forma objetiva. Um artigo académico da Universidade de Cambridge e a opinião de um vizinho, algures no planeta, que afirma que a Terra é plana, valem o mesmo. As redes sociais equiparam essas informações e contribuem para o crescimento das teorias da conspiração, na medida em que alimentam o viés de confirmação — a tendência para nos depararmos apenas com a informação que confirma o que já suspeitávamos. Uma espécie de reafirmação da própria paranóia, que intensifica um pensamento cada vez mais polarizado e fechado, sem espaço para discussão nem para outras perspetivas.
A lógica algorítmica oferece-nos a “segurança” de espaços compartimentados, onde nos reunimos com quem partilha os mesmos medos, sofre as mesmas dores e desconfia dos mesmos culpados.
A ampliação quase obscena do mercado da informação exige reforçar a educação em todos os níveis, para ajudar a identificar a validade de uma informação em detrimento de outra. Alguns académicos entendem que o fenómeno das teorias da conspiração é próprio das classes médias em decadência. O surgimento deste tipo de “racionalidade heterodoxa” teria, portanto, uma explicação económica. Os indivíduos percebem uma decadência económica real, mas, em vez de analisarem as causas históricas e materiais, procuram explicações fáceis, imediatas e totais. Os marginalizados juntam-se a outros marginalizados e, em vez de pensarem politicamente, por exemplo, nas consequências da economia de mercado, na retração do Estado, ou no esvaziamento do público em favor do privado, interpretam a sua crise de classe como uma conspiração orquestrada por uma organização secreta com poder. E isso é paranóia. É o pensamento mágico que surge para dar sentido à vida em tempos de crise. Assim como antes se procurava refúgio na religião, hoje a religião assume a forma de conspiração. Deus é substituído por uma elite com poder.
Se antes Deus era a explicação última para tudo, agora é uma elite secreta, seja a NASA, a maçonaria ou qualquer outra. As teorias da conspiração são, neste sentido, uma espécie de paranoia secular contemporânea. E essa crença é profundamente teatral.
O período da tua residência culmina numa leitura pública do texto, a 29 de novembro. O que te interessa explorar nesse momento de abertura ao público e que tipo de experiência esperas gerar?
Estou muito entusiasmado por partilhar o material. É um texto que me apaixona, algo que nem sempre acontece quando se atravessa o processo angustiante da escrita. Seja qual for o resultado, será um bom momento para confirmar, ou não, as reações dos outros. Creio que o vou desfrutar especialmente por estar a escrever num contexto tão particular, numa residência que tem sido tão frutífera e que me permitiu encontrar criadores potentes, tanto nas aulas que ministrei como nas obras que vi aqui no Porto. Estou ansioso por receber os comentários das pessoas que generosamente partilharam comigo as suas poéticas e formas de criar. Cá vos espero!