"Antes procurava-se refúgio na religião, hoje ela assume a forma de conspiração. Deus é substituído por uma elite com poder."

Entrevista a Santiago Sanguinetti
Por Catarina de Dios Fonseca | Tradução para português

14.11.2025

Vivemos tempos em que a realidade parece ter perdido o chão: onde o absurdo se confunde com o quotidiano e as fronteiras entre a crença e o delírio se desfazem à velocidade de um scroll. É a partir desse território instável que nasce TERRAPLANISTAS, o novo projeto do dramaturgo e encenador uruguaio Santiago Sanguinetti, artista em residência n’A Turma, no âmbito do programa InResidence 2025.

Um grupo de terraplanistas parte da Cidade do Cabo rumo à Antártida com o propósito de demonstrar que a Terra é plana e está rodeada por uma muralha de gelo. Ao ritmo de canções e teorias delirantes, atacam uma base científica e fazem reféns os seus investigadores. Inspirado em factos reais, o projeto propõe um musical político que, através do humor negro, explora a fascinação contemporânea pela desinformação e o desejo de pertença em tempos de ruído digital. Neste cenário de incerteza, as teorias da conspiração surgem como uma corda à qual muitos se agarram: um ato de fé em pleno vazio, uma forma moderna de pensamento mágico que procura dar sentido à crise. Durante a residência, Sanguinetti escreverá a peça TERRAPLANISTAS, uma experiência que investiga as fronteiras entre política, ficção e humor. Conversámos com o autor sobre o seu percurso, o impulso que deu origem a este projeto e o papel da arte num tempo em que a ficção e o delírio parecem disputar o lugar da realidade.

 

Antes de falarmos de TERRAPLANISTAS, gostava que te apresentasses a quem ainda não te conhece. A tua escrita atravessa a política, a filosofia e o humor, mas também temas ligados à ideologia e à condição humana. O que te move como artista e o que procuras descobrir, ou provocar, através do teatro?

Essa pergunta está relacionada com a minha formação académica. Penso o teatro a partir da interpretação, porque sou ator. Licenciei-me na EMAD, a escola nacional de teatro do Uruguai, mas ao mesmo tempo sou professor de literatura e trabalho com adolescentes em liceus de Montevideu. Estudei também filosofia na Faculdade de Humanidades e sou diplomado em estudos internacionais pela Universidade do Chile. Todas estas formações convergem num tipo de teatro ideologicamente comprometido, politicamente consciente, mas que conserva uma dimensão lúdica própria do jogo teatral, entendendo o texto como uma possibilidade de explosão histriónica para os atores.

 

O texto está fechado, mas a cena continua a ser um território aberto para o ator. De que forma te interessa esse jogo entre a precisão da escrita e a liberdade interpretativa?

O que está aberto é o nível emocional a que as interpretações podem chegar através da escrita. Em geral, os meus textos estão terminados quando começo a trabalhá-los com os atores. Mas procuro que essa escrita seja uma possibilidade para o desenvolvimento das suas capacidades interpretativas, o que não implica necessariamente improvisar palavras, mas permitir a explosão emocional e lúdica de atores e atrizes imersos na situação dramática. No meu último texto, ZOMBI MANIFIESTO, por exemplo, escrevi duas personagens diametralmente opostas para serem interpretadas pela mesma atriz, Carla Moscatelli. Uma era uma mulher jovem, a outra um homem de 70 anos, hiperfascista. A Carla ganhou vários prémios em Montevideu por esse trabalho. A sua interpretação foi brilhante. O texto foi uma desculpa: as palavras procuravam o desdobramento das suas capacidades interpretativas. Esta forma de escrever tem, por sua vez, uma componente humorística, porque mistura elementos que, em princípio, não deveriam coexistir. E o humor, na realidade, é isso: juntar elementos que, à priori, parecem não combinar. 

 

TERRAPLANISTAS parte de um tema que parece saído de um delírio coletivo, mas que tem raízes muito reais. O que te levou a abordar o terraplanismo através de um formato musical e o que te interessa nesse fenómeno, na sua dimensão social, simbólica e absurda?

Quando me confronto com a ideia de uma nova peça, costumo pensar no impacto sensível e estético que esse trabalho terá nos meus espectadores ideais, mentais. Imagino uma comoção específica entre forma e conteúdo. Por isso, costumo combinar elementos opostos: a conteúdos sérios, formas irreverentes. Neste caso, o tema é o terraplanismo, mas a forma é o musical, o que, por si só, é algo estranho e que me seduz. É nessa contradição que encontro movimento, pensamento e discussão política. Tomo o terraplanismo como um exemplo particular das teorias da conspiração, dessa espécie de pensamento mágico que tantas vezes acaba associado a extremismos, a fascismos, próprios de indivíduos alienados, mergulhados num neoliberalismo extremo que desumaniza, despersonaliza e isola. A minha intenção ao tratar este tema é criticá-lo, sim, ver o seu lado patético e perigoso, mas ao mesmo tempo compreender a sua tristeza, tentar entender quão isolado se deve sentir alguém para encontrar uma sensação de pertença num grupo tão absurdo. O meu propósito com esta obra é, portanto, expor o ridículo, mas também reconhecer que esse ridículo é resultado da ação despersonalizadora de uma economia globalizada que separa, compartimenta e lança as pessoas ao abismo.

O surgimento de crenças como o terraplanismo é, nesse sentido, consequência de uma atitude que também nos pertence. Até que ponto não somos nós responsáveis por aquilo que existe? O que fazemos para o evitar? Limitamo-nos a apontar e condenar, ou trabalhamos para integrar?

Estas perguntas fazem parte da história que estou a escrever, sem esquecer o humor desesperado e corrosivo próprio dos tempos extremos, as canções de glam rock compostas pelo músico com quem trabalho atualmente, Sebastián Codoni, e sem esquecer que estas personagens são patéticas, tristes e, ao mesmo tempo, comoventes. É assim que quero construí-las: comoventes, ainda que grotescas e violentas.

 

Vivemos rodeados de desinformação — fake news, redes sociais que alimentam bolhas e nos repetem o que queremos ouvir. Achas que essa lógica algorítmica tem um impacto direto na forma como hoje se constrói o pensamento político e o extremismo? Essa banalização da informação pode transformar-se num terreno fértil para extremismos e populismos?

As redes sociais oferecem um mercado hiper-livre de informação, não categorizado de forma objetiva. Um artigo académico da Universidade de Cambridge e a opinião de um vizinho, algures no planeta, que afirma que a Terra é plana, valem o mesmo. As redes sociais equiparam essas informações e contribuem para o crescimento das teorias da conspiração, na medida em que alimentam o viés de confirmaçãoa tendência para nos depararmos apenas com a informação que confirma o que já suspeitávamos. Uma espécie de reafirmação da própria paranóia, que intensifica um pensamento cada vez mais polarizado e fechado, sem espaço para discussão nem para outras perspetivas.

A lógica algorítmica oferece-nos a “segurança” de espaços compartimentados, onde nos reunimos com quem partilha os mesmos medos, sofre as mesmas dores e desconfia dos mesmos culpados.

A ampliação quase obscena do mercado da informação exige reforçar a educação em todos os níveis, para ajudar a identificar a validade de uma informação em detrimento de outra. Alguns académicos entendem que o fenómeno das teorias da conspiração é próprio das classes médias em decadência. O surgimento deste tipo de “racionalidade heterodoxa” teria, portanto, uma explicação económica. Os indivíduos percebem uma decadência económica real, mas, em vez de analisarem as causas históricas e materiais, procuram explicações fáceis, imediatas e totais. Os marginalizados juntam-se a outros marginalizados e, em vez de pensarem politicamente, por exemplo, nas consequências da economia de mercado, na retração do Estado, ou no esvaziamento do público em favor do privado, interpretam a sua crise de classe como uma conspiração orquestrada por uma organização secreta com poder. E isso é paranóia. É o pensamento mágico que surge para dar sentido à vida em tempos de crise. Assim como antes se procurava refúgio na religião, hoje a religião assume a forma de conspiração. Deus é substituído por uma elite com poder.

Se antes Deus era a explicação última para tudo, agora é uma elite secreta, seja a NASA, a maçonaria ou qualquer outra. As teorias da conspiração são, neste sentido, uma espécie de paranoia secular contemporânea. E essa crença é profundamente teatral.

 

O período da tua residência culmina numa leitura pública do texto, a 29 de novembro. O que te interessa explorar nesse momento de abertura ao público e que tipo de experiência esperas gerar?

Estou muito entusiasmado por partilhar o material. É um texto que me apaixona, algo que nem sempre acontece quando se atravessa o processo angustiante da escrita. Seja qual for o resultado, será um bom momento para confirmar, ou não, as reações dos outros. Creio que o vou desfrutar especialmente por estar a escrever num contexto tão particular, numa residência que tem sido tão frutífera e que me permitiu encontrar criadores potentes, tanto nas aulas que ministrei como nas obras que vi aqui no Porto. Estou ansioso por receber os comentários das pessoas que generosamente partilharam comigo as suas poéticas e formas de criar. Cá vos espero!

Vivimos tiempos en los que la realidad parece haber perdido el suelo: donde lo absurdo se confunde con lo cotidiano y las fronteras entre la creencia y el delirio se desdibujan a la velocidad de un scroll.
Desde ese territorio inestable surge TERRAPLANISTAS, el nuevo proyecto del dramaturgo y director uruguayo Santiago Sanguinetti, artista en residencia en A Turma dentro del programa InResidence 2025.

Un grupo de terraplanistas parte de Ciudad del Cabo rumbo a la Antártida con el propósito de demostrar que la Tierra es plana y está rodeada por una muralla de hielo. Al ritmo de canciones y teorías delirantes, atacan una base científica y toman como rehenes a sus investigadores. Inspirado en hechos reales, el proyecto propone un musical político que, a través del humor negro, explora la fascinación contemporánea por la desinformación y el deseo de pertenencia en tiempos de ruido digital. En ese paisaje de incertidumbre, las teorías de la conspiración aparecen como una cuerda a la que muchos se aferran: un acto de fe en medio del vacío, una forma moderna de pensamiento mágico que intenta dar sentido a la crisis. Durante la residencia, Sanguinetti escribirá la obra TERRAPLANISTAS, una experiencia que indaga en las fronteras entre política, ficción y humor. Conversamos con el autor sobre su recorrido, el impulso que dio origen a este proyecto y el papel del arte en un tiempo en el que la ficción y el delirio parecen disputar el lugar de la realidad.

 

Antes de hablar de TERRAPLANISTAS, me gustaría que te presentaras para quienes todavía no te conocen. Tu escritura atraviesa la política, la filosofía y el humor, pero también temas ligados a la ideología y a la condición humana. ¿Qué te mueve como artista y qué buscás descubrir, o provocar, a través del teatro?

Esa pregunta está relacionada con mi formación académica. Yo pienso el teatro desde la actuación, porque soy actor. Egresé de la EMAD, la escuela nacional de teatro de Uruguay, pero al mismo tiempo soy profesor de literatura y trabajo con adolescentes en liceos de Montevideo. Estudié un poco de filosofía en la Facultad de Humanidades y soy diplomado en estudios internacionales por la Universidad de Chile. Entonces, todas estas formaciones apuntan a escribir un tipo de teatro ideológicamente comprometido, políticamente dimensionado, pero que al mismo tiempo tenga una perspectiva lúdica propia del juego teatral, entendiendo el texto como una posibilidad de explosión histriónica para los actores.

 

El texto está cerrado, pero la escena sigue siendo un territorio abierto para el actor. ¿De qué manera te interesa ese juego escénico entre la precisión de la escritura y la libertad interpretativa?

Lo que está abierto es el nivel emocional al que pueden llegar las interpretaciones a través de  la escritura. En general, mis textos están terminados  cuando comienzo a trabajarlos con los actores. Pero lo que sí intento es que esa escritura sea una posibilidad para el desarrollo de las capacidades actorales, lo que no necesariamente supone  improvisar palabras, sino permitir la explosión emocional y lúdica de actores y actrices inmersos en la situación dramática. En mi último texto, ZOMBI MANIFIESTO, por ejemplo, escribí dos personajes diametralmente opuestos para que los interpretara la misma actriz, Carla Moscatelli. Uno de ellos es una mujer joven y el otro, un hombre de 70 años, hiperfascista. Carla ganó varios  premios en Montevideo por ese trabajo. Su actuación fue  brillante. El texto fue una excusa, la palabra buscaba el despliegue de sus capacidades interpretativas. Esta forma de escribir tiene, a su vez, un componente humorístico, porque mezcla elementos que ordinariamente no deberían estar juntos.
Y el humor, en realidad, es eso: poner algo donde no va.

 

TERRAPLANISTAS parte de un tema que parece salido de un delirio colectivo, pero que tiene raíces muy reales. ¿Qué te llevó a abordar el terraplanismo desde el musical y qué te interesa de ese fenómeno en su dimensión social, simbólica y absurda?

Cuando me enfrento a la idea de una nueva obra, suelo pensar en el impacto sensible y estético que tendrá ese trabajo en mis espectadores ideales, mentales. Imagino una conmoción de forma y contenido específica, digamos. Por eso, suelo trabajar combinando elementos contrapuestos: a contenidos serios, formas irreverentes. En este caso, el tema es el terraplanismo, pero la forma es el musical. Eso, de por sí, es algo extraño y que me seduce. Encuentro que en esa contradicción se moviliza el pensamiento y se promueve la discusión teórica y política. Tomo el terraplanismo como un ejemplo particular  de las  teorías de la conspiración, de esa especie de pensamiento mágico que en numerosas ocasiones  termina asociado a los extremismos, a los fascismos, propios de individuos alienados, hundidos en  un neoliberalismo extremo que deshumaniza, despersonaliza y aísla. Mi intención al tratar este tema es criticarlo, sí, ver su aspecto patético y peligroso , pero al mismo tiempo apreciar su lado triste, e intentar entender cuán aislado debe sentirse alguien para encontrar sensación de pertenencia en un grupo tan lleno de absurdo. Mi propósito con esta obra es, entonces, poner en escena  la ridiculez, pero al mismo tiempo reconocer que esa ridiculez es el resultado  de la acción despersonalizadora de una economía globalizada que separa, compartimenta y arroja al abismo.

El surgimiento de creencias como el terraplanismo e es, en este sentido, el resultado de una actitud que también nos pertenece; ¿hasta qué punto no somos nosotros los responsables de que eso exista? ¿Qué hacemos para evitarlo? ¿Nos limitamos a señalar y condenar? ¿O trabajamos para integrar?

Estas preguntas forman parte de la historia que estoy escribiendo, sin olvidar el humor desesperado y corrosivo propio de tiempos extremos, sin olvidar las canciones de glam rock compuestas por el músico con el que trabajo actualmente, Sebastián Codoni, sin olvidar tampoco que estos personajes son patéticos, tristes pero, al mismo tiempo, entrañables. Así quiero construirlos: entrañables, aunque sus errores conceptuales sean grotescos y sus vidas, violentas.

 

Vivimos rodeados de desinformación: fake news, redes sociales que alimentan burbujas y nos repiten lo que queremos escuchar. ¿Creés que esa lógica algorítmica tiene un impacto directo en la forma en que hoy se construye el pensamiento político y los extremismos? ¿Esa banalización de la información puede convertirse en un terreno fértil para los extremismos y los populismos?

Las redes sociales ofrecen un mercado hiperlibre de información, que no está categorizada de forma objetiva. Vale lo mismo un artículo académico de la Universidad de Cambridge que la opinión de un vecino en algún lugar del planeta que afirma que la Tierra es plana. Las redes sociales equiparan esas informaciones.  y contribuyen al crecimiento de las teorías de la conspiración en tanto fomentan el sesgo de confirmación, es decir, la tendencia a encontrarse con la información que “confirma” lo que ya se sospechaba. Una especie de reafirmación de la propia paranoia, que potencia el pensamiento polarizado y cerrado, sin espacio para la discusión ni para perspectivas alternas.

La lógica algorítmica nos ofrece la “seguridad” de los espacios compartimentados donde uno se reúne con quienes tienen los mismos miedos, sufren las mismos dolores y sospechan de los mismos culpables. La ampliación casi obscena del mercado de la información exige reforzar la educación en todos los niveles para ayudar a identificar la validez de una información en detrimento de otra.

Algunos académicos entienden que el fenómeno de las teorías de la conspiración es un fenómeno propio de las clases medias en decadencia. El surgimiento de este tipo de “racionalidad heterodoxa”  tendría, desde ese punto de vista, una explicación  económica. Los individuos perciben una decadencia económica real, pero en lugar de analizar causas históricas y materiales buscan explicaciones fáciles, inmediatas y totales. Los individuos marginados se juntan con otros individuos marginados y, en lugar de pensar políticamente, por ejemplo, en las consecuencias de la economía de mercado o en la retracción del estado, en lugar de preguntarse por el vaciamiento de lo público en favor de lo privado, en lugar de reflexionar sobre las consecuencias de la ausencia de relatos colectivos y en el auge de las narrativas de éxito individual inalcanzables para la enorme mayoría de las personas, en lugar de eso, interpretan su crisis de clase  como una conspiración dirigida por una organización secreta con poder. Y eso es paranoia.  Es el pensamiento mágico que surge para darle sentido a la vida en tiempos de crisis. Así como antes se buscaba refugio en la religión, hoy la religión asume la forma de una conspiración.  Dios es sustituido por una élite con poder. 

 Si antes Dios era la explicación última para todo,  ahora lo es una élite secreta, da igual que sea la NASA o la masonería. Las teorías de la conspiración serían, así, una especie de paranoia secular contemporánea. Esa creencia es profundamente teatral. 

 

El período de tu residencia culmina en una lectura pública del texto el 29 de noviembre. ¿Qué te interesa explorar en ese momento de apertura al público y qué tipo de experiencia esperás generar?

Estoy muy expectante por compartir el material. Es un texto que me entusiasma, algo que no siempre sucede cuando uno atraviesa el proceso angustioso de la escritura. En cualquier caso, va a ser un buen momento para tener, o no, la confirmación de los otros. Siento que lo voy a disfrutar especialmente por estar escribiendo en este contexto tan particular, en una residencia que ha sido tan fructífera y que me ha permitido encontrarme con creadores potentes, tanto en las clases que dicté como en las obras de teatro que vi aquí en Oporto. Estoy deseoso de recibir los comentarios de las personas que compartieron generosamente conmigo sus poéticas y sus formas de crear.
¡Aquí los espero!