Contexto
O espetáculo Funny Funny Bones abre espaço para refletir sobre o riso enquanto experiência coletiva e profundamente humana. Entre o teatro físico, o clown e uma abordagem não verbal, o seu criador explora o riso como algo que escapa ao controlo, que emerge no encontro com o outro e que pode funcionar como pausa, descarga e até forma de resistência num tempo marcado pela aceleração e pela incerteza - uma espécie de gesto punk, como sugere o autor Rui Paixão.
Atualmente em residência artística n’A Turma, o projeto será apresentado ao público no dia 13 de junho.
Funny Funny Bones nasce de um desejo muito simples: ver pessoas reunidas a rir. Num mundo marcado por tensão e incerteza, o riso pode mesmo ser um ato de resistência?
Eu acho que sempre tive muito medo da palavra anestesia. Foi uma coisa da qual eu sempre tentei fugir. Olhar o riso como anestesia, quase como se tu te esquecesses da realidade. Mas agora perdi esse medo. Acho que esse ato de resistência pode estar muito associado à ideia de uma anestesia. Ou seja, um certo momento em que tu fazes uma paragem para recarregar energias. A ideia de recarregar e ganhar coragem.
E depois, por outro lado, o riso para mim é uma coisa ligada ao inferno. Por outras palavras, menos poéticas, é algo que está ligado ao mal, ao que não é aceitável, ao gozo, ao jocoso, ao que a religião não quer aceitar, ao que a política tem muito medo. Toda a gente da extrema direita, por exemplo, odeia o riso e tenta bloquear comediantes. Portanto, o riso é o esgoto da sociedade. Eu sinto que trazer o riso para o limpo, para a zona que nós queremos controlar, é uma espécie de ato muito punk em que esse recarregar energias, esse momento de anestesia, é na verdade um momento em que tu permites ao espectador recarregar com uma energia ainda mais volumosa do que aquela que tinha antes, muito mais rebelde, muito mais despreocupada, muito mais consciente também. O riso traz isso, é muito animalesco. É a única coisa que o ser humano tem, na minha perspectiva, que preserva um certo ato animalesco. Nós mostramos os dentes quando rimos, é muito agressivo, ficamos descontrolados, não conseguimos controlar o som que produzimos, não conseguimos controlar o nosso gesto, o nosso corpo. Tudo isso interessa-me muito.
Acho que esse ato de resistência pode estar muito associado à ideia de uma anestesia. Ou seja, um momento em que tu fazes uma paragem para recarregar energias.
Este espetáculo abdica da palavra e aposta exclusivamente na fisicalidade e na relação direta com o público. O que te interessa explorar nesse território mais “nu” do clown?
Primeiro, em termos do clown, eu não venho de uma família tradicional de circo e nunca fiz formação em clown. Portanto, o clown surge. Eu faço teatro e depois, por não ter trabalho em teatro ou por estar muito chateado com o teatro e por não reconhecer a forma como falo, decido fugir para o clown, ir para a rua, passar o chapéu. Então, o clown surge por rebeldia, mais do que como experiência ou como uma técnica que eu queria muito desenvolver. Eu não tinha vontade nenhuma, eu não me fazia ideia do que era o clown. Foi o clown que me escolheu a mim, digamos. Por muito tempo, eu tinha este discurso de ter pena de não ter feito formação em clown e agora estou no ato contrário, que é perceber que a formação que tive em teatro é muito mais valiosa para o clown do que todas as formações que existem do clown, até ao momento.
O que eu estou a tentar encontrar é o que é que pode ser o next step, o que é que pode ser o futuro da linguagem. Porque eu acho que ela está muito presa ao passado e as piadas que o palhaço faz, a forma que ele tem para fazer os outros rir, parece-me que já estão datadas e que é muito difícil alguém rir com as piadas. Pelo menos tudo o que eu vejo de clowns é muito difícil eu rir-me genuinamente.
Eu acredito que, se o riso é uma coisa que não vai desaparecer, tem de haver uma nova forma, uma nova imagética de trabalharmos a figura do palhaço e é com isso que eu estou obcecado. A linguagem, ou o não uso da linguagem, vem associado a isso. Primeiro, porque eu quero dissociar o trabalho que faço do teatro, da literatura, porque não é de todo um caminho que me interessa, e porque acho que o teatro português é muito focado na literatura e no texto e eu quero fazer um teatro que tenha a ver com outra coisa, que tenha a ver com um entendimento menos racional dos espetáculos.
O clown ajuda-me a tirar a palavra porque aí eu tenho uma base quase mais musical. É como ouvir uma música. Estou a interligar-me com os espectadores de uma forma mais emocional, mais feroz, mais... Eles ficam muito curiosos porque nós, no dia-a-dia, usamos a palavra. Nós habituámos-nos a comunicar assim, mas se vais na rua e vês alguém a comunicar contigo sem palavras, tu ficas muito curioso. Ficas a tentar perceber o que é que a pessoa quer. Está alguém ao longe a dizer algo, a fazer gestos, tu ficas curioso porque estás a tentar decifrar o que é - e é isso que me interessa no teatro sem palavras. É gerar logo à partida uma curiosidade. Mas o que é que ele está a dizer? O que é que ele quer dizer com isto?
Eu acredito que, se o riso é uma coisa que não vai desaparecer, tem de haver uma nova forma de trabalharmos a figura do palhaço e é com isso que eu estou obcecado.
Falas de um momento em que decides aceitar plenamente o teu destino de fazer rir, sem máscaras. Que transformações aconteceram no teu percurso para chegares a esse lugar?
Eu tenho vindo a criar já há bastante tempo e chateia-me muito o ato da justificação sempre que vou criar. Ou seja, o gesto que eu faço em palco ter que vir com uma justificação. Sentia-me sempre muito mentiroso. Quando dava uma entrevista e dizia que "a minha ideia é esta", "o meu objetivo é este", "é sobre isto que quero falar"… E depois ia para o estúdio criar e o corpo ligava-me para outras zonas, que perdiam completamente o sentido.
Sentia-me sempre mentiroso nesse lugar e eu acho que este espetáculo é o primeiro em que eu digo abertamente que não quero falar de nada. Não há aqui nada que eu queira defender, não há uma bandeira levantada, não há um statement, não é político, não é nada. É um momento que eu me estou a propor fazer com os espectadores. Ainda não sabem o que é que será, sei que vos vou tentar fazer rir, mas é só isso. Não esperem mais nada de mim.
Essa limpeza vem precisamente porque, em muitos espetáculos que eu fiz, senti que a um dado momento sacrifiquei o que queria verdadeiramente fazer porque achava que era necessário a outra layer para corresponder, para fazer parte, para que viessem ver e dissessem mas ele não é só um palhaço, ele também pensa sobre... pronto, mas porque raio é que alguém que te faz rir não está a pensar também? É isso que eu questiono neste espetáculo.
Não há aqui nada que eu queira defender, não há uma bandeira levantada, não há um statement, não é político, não é nada.
O projeto cruza referências como Pina Bausch, o fenómeno do riso contagioso e a participação do público. Como é que estes elementos se encontram na prática dentro do espetáculo?
São pontos de partida. Eu vou beber um bocadinho a umas, um bocadinho a outras e depois eu mergulho muito no caos. Ou seja, os meus processos criativos consistem em muita recolha de informação e depois, uma vez que vou para o estúdio, vou por onde me apaixono.
Ou seja, não faço um guião do que vou fazer hoje no ensaio. Isso não existe. Acordo de manhã, bebo um café, chego ao estúdio e há de haver qualquer coisa que me atraia. Ouvir uma música, aprender uma música, mexer o corpo, dançar, experimentar uma voz inventada - e eu vou atrás dessas coisas.
No momento em que eu venho para o estúdio, todas essas referências desaparecem. Não estou a pensar "agora vou trabalhar sobre esta frase que eu encontrei da Pina Bausch". Nunca faço isso. São coisas que estão aqui atrás, no cérebro, e que se aparecerem são aquelas que, quando as li, pensei verdadeiramente que dariam alguma coisa boa para o espetáculo. É nisso isso que eu confio, que elas se encontrem no momento em que estamos em estúdio.
Os meus processos criativos consistem em muita recolha de informação e depois, uma vez que vou para o estúdio, vou por onde me apaixono.
Num tempo em que a criação artística começa a ser atravessada pela inteligência artificial, falas do riso partilhado como um dos últimos territórios incontornavelmente humanos. O que é que achas que ainda nos pertence - e que vale a pena proteger - nesse gesto de estarmos juntos a rir?
Sem dúvida, o encontro. Eu pelo menos penso muito na experiência, por exemplo, de ir ao cinema, ou de ver um filme em casa, sozinho, ou que experiência é esta de nós nos colocarmos numa sala a fazer uma coisa todos juntos. O que o riso tem de fascinante para mim, e acho que já todos passámos por essa experiência, é que o verdadeiro riso, aquele que nos tira o fôlego, só aconteceu com amigos ou com pessoas à volta. Nunca aconteceu sozinho a menos que tenhas alguma coisa estranha na cabeça, mas raramente acontece um riso sem fôlego sozinho. É uma coisa de grupo, é uma coisa de contágio, é uma coisa de partilha, de pertença a uma ideia, a um lugar imaginário. Nós estamos a rir porque imaginámos exatamente a mesma coisa. Estamos a rir porque temos um segredo todos juntos e não estamos a conseguir controlar e ele está a sair através do som. E eu acho que isso é impossível na inteligência artificial.
Eu consigo perceber a substituição da mão do médico numa operação. Eu consigo entender a substituição da pessoa que nos serve à mesa. Eu consigo perceber tudo isso e acho que vai acontecer inevitavelmente. A tecnologia trazer-nos essas coisas, esses robôs. Mas o riso, o ato de estarmos juntos, de contarmos histórias uns aos outros, de nos emocionarmos e tocarmos na carne uns dos outros, isso é impossível. É algo humano. Nunca vai ser substituído. E este projeto tem muito disso, é uma lembrança. Uma lembrança de que podemos estar a falar do crescimento e da tecnologia e da evolução mas há algo que se vai manter. É muito curioso porque até há bem pouco tempo questionava-se o lugar do cinema. Será que o cinema vai continuar com a Netflix e não sei o quê. Questionava-se o lugar do teatro. O que é que vai acontecer no futuro. O Covid trouxe-nos muito isso. Ah, pode acontecer teatro online. Depois percebemos que não. Nada substitui a experiência de irmos a um concerto todos juntos. Então, essa ideia do live show, live entertainment. Qualquer coisa que acontece ao vivo, que é único, que é espontâneo, em que acontecem coisas que nos fazem ficar acordados. Isso é uma obsessão.
É uma coisa de grupo, é uma coisa de contágio, é uma coisa de partilha, de pertença a uma ideia, a um lugar imaginário.
O que gostavas que ficasse com o público depois de ver Funny Funny Bones - para além dessa sensação de ter rido sem saber bem porquê?
Eu gostava que as pessoas saíssem com uma dor de barriga de rir e que depois dissessem “epá, não percebi nada do que acabei de ver mas ri-me muito”. Essa ideia do eu não percebi nada do que acabei de ver é muito motivadora para mim.
Vivemos mesmo num contexto artístico em que as pessoas querem perceber e há cada vez mais críticos e quem se forma nas escolas vira crítico e nós ficamos críticos uns dos outros. Os espetáculos ou são bons ou são maus, ou não percebi, ou a luz ou isto ou aquilo. E eu tenho vindo a perceber com o tempo que isso começa a interessar-me muito pouco. Há qualquer coisa de visceral, de honesto, que quando surge em palco, supera. Supera se o figurino está bem feito ou mal feito, se a luz entrou na deixa certa ou não, se o texto foi bem dito ou se foi gaguejado. E é esse lugar do eu não percebi. Eu fui provocado. Também há muitas vezes, pelo menos quando eu faço espetáculos, em que as pessoas criticam a invenção. Como não reconhecem o que estão a receber como estímulo, como nunca viram esta imagem ou esta forma de fazer ou este exagero, a única resposta que têm é o não gostar ou o rejeitar. E eu gosto muito dessa zona. Claro que tenho a preocupação de que não seja um mau espetáculo, pelo contrário, mas gosto de estimular essa curiosidade. O inventar coisas novas. O inventar. Mostrar que ainda é possível. Gerar coisas que tu não viste. Que tu não sabes ler. E por não saber ler, provavelmente o riso pode surgir. Ou a rejeição total pode surgir e está tudo bem. Os dois lados. Tu vais chegar a casa com algo novo. Eu não quero fazer um espetáculo unânime. Nós não rimos das mesmas coisas e essa foi, na verdade, a primeira fase deste projeto. Pode haver pessoas que não se riem da mesma coisa, outras que riem de coisas que tu achas que não têm piada. Está tudo bem. Não é unânime. Não tem de ser unânime e também não tem que ser para rir, em última instância.
Eu gostava que as pessoas saíssem com uma dor de barriga de rir e que depois dissessem “epá, não percebi nada do que acabei de ver mas ri-me muito”.
Tenho uma última pergunta, desta vez em tom de provocação. Não será essa visão também um statement de alguma forma?
Sem dúvida que é. Sem ter aquela parte dos livros, daquela bibliografia toda, de ser muito interessante. Porque politicamente, não sei o quê… Também é um statement muito forte. Isto tudo começou porque eu comecei a ouvir muito punk. Comecei a ficar viciado em bandas como Wet Legs, Idles, Viagra Boys. Aquilo tocava-me muito, em todos os aspetos. Tudo o que eu procurava em termos políticos, literatura, estava lá. E de repente ouves as músicas e aquilo contém muito mais do que qualquer enciclopédia ou livro. Eu acho isso brutal porque, novamente, estamos a falar de uma zona não muito racional. É sobre o grito, é sobre o statement, é visceral. O punk tem isso por si só. Então, quando eu digo que não tenho objetivos nenhuns, é óbvio que eu vejo as notícias todos os dias. Todos os dias investigo, tento perceber como é que posso ajudar. Portanto, tem na ascensão uma pessoa atenta e é impossível as imagens que eu estou a gerar não serem um reflexo disso. A única coisa que eu não estou a dizer ao público é olhem o quão inteligente eu sou porque eu tenho aqui uma solução qualquer. Não estou a dizer isso. Estou só a dizer, olhem, eu também não sei. Venham comigo e vamos só gritar um bocadinho. E gritamos juntos.